"Nas duas cidades, menores de 13 anos, desacompanhados, só poderão ficar nas ruas até 20h30m. Os que têm até 15 anos têm permissão para permanecer até 22h. Adolescentes entre 16 e 18 anos podem ficar até 23h." http://oglobo.globo.com/cidades/mat/2009/05/13/patos-de-minas-em-minas-gerais-adota-toque-de-recolher-para-menores-de-16-anos-partir-de-23-horas-755843690.asp
...Foi isto que me deu um tremendo susto durante essa semana, queria até excluir o blog e esconder os textos que ainda estão guardados ali, pensei que tinham dado um golpe de estado e o velho havia voltado...
Mas "felizmente" não é a ditadura voltando, é só a nova determinação da justiça brasileira em algumas cidades que visam o toque de recolher para a diminuição do índice de criminalidade envolvendo crianças nas idades indicadas na notícia lançada no site do jornal O Globo. Além dessa, no jornal da rede Integração filiada à rede Globo, a notícia diz que na cidade de Patos de Minas, onde a determinação foi instaurada desde o dia 1° de Junho já houve a esperada diminuição.
Pareceu-me tão linda aquela reportagem, com a opinião de algumas pessoas "mais velhas" dizendo mais ou menos assim "Sim, isso é muito bom" ou "Claro, isso resolverá os problemas" ou ainda "É pelo bem de minhas crianças". Será impressionante mesmo, determinações de horários para cada idade, chega de pique-esconde depois das 20:30hs, nada de namoro na porta de casa depois das 22hs, espero que não exilem os maiores de 18, é o que falta anunciar. O "ser criança" estará dissociado ao ficar na rua, o melhor mesmo é ir para dentro assistir TV ou jogar no seu mais novo PlayStation. As pessoas tem mesmo é que ficar em suas prisões disfarçadas de casas.
Alguns professores me falam que muitas pessoas ainda tem uma visão de que algumas épocas são melhores que outras e sempre escuto de avós e tios "mais velhos" que dizem " Bom era na época da ditadura, em que não existia violência", "A segurança era realmente válida". Isso me bastou para entender a opinião dos "selecionados" pela imprensa para falar. Além, é claro, da delegada, policiais e da promotora de justiça que favoráveis à determinação deram seus depoimentos. Não vi, até agora, nenhuma opinião contrária sobre a notícia e pelo menos nas emissoras de canal aberto elitistas isso não ocorrerá, não pelo meu pessimismo, mas por um realismo me imposto pelo que vejo nos jornais e telejornais há anos. O que realmente gostaria de ressaltar aqui, é que certamente não são toques de recolher ou qualquer outra medida punitiva autoritária que irá resolver um problema que é de longa data como a criminalidade, seja ela na infância, adolescência ou na fase adulta, não se é necessário ser um especialista no assunto pra saber que medidas como essa só levam a revoltas ainda maiores que causarão o maior uso da violência para enfrentá-las. Além disso, para um jovem, o que é proibido se torna extremamente atraente. A criminalidade é um problema histórico, principalmente no Brasil, e não é da noite para o dia que se resolve, assim como muitos problemas, se resolve em um longo processo que envolve governantes e "governados".
Não estou aqui para dizer como o problema da criminalidade pode ser resolvido, mas apenas para abrir os olhos daqueles que ouviram a notícia e que porventura ainda não leram ou ouviram uma segunda opinião. Para expressar o meu "nojo" diante uma "política bombeiro" que sempre chega atrasada para apagar um fogo que já se alastrou e que se é impossível de apagar.
Maycon Dantas
mentiras que rasgam
Há 6 anos
hahaha! Por que apagar o blog? Tá legal, cara...
ResponderExcluirSobre essa questão do toque de recolher, acho que você levantou alguns pontos interessantes...
A gente deve estar atento a essas pseudo-verdades, que se colocam no senso-comum.
Essas idéias tais como: da ditadura como período exemplar, do cerceamento das liberdades como diagnóstico dos problemas sociais, de que os "outros tempos" são idílicos, e tantas outras...
Além disso, a gente vê essa papel da mídia em "forjar" uma maneira de pensar as coisas. Mostrando o aspecto positivo daquilo que por eles é tido como o melhor.
Como historiadores, a gente devemos ter em mente que tudo isso é destinado a imprimir um tipo de memória dominante. Que é excludente, que não leva em consideração outras memórias, outras experiências sociais.
E nessa perspectiva do "excludente", do "dominante" é que se criam os projetos do Estado.
Levam eles um verdadeiro prognóstico para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária? Levam eles em consideração a diversidade social e consequentemente das desigualdades? Levam eles consideração questões identitárias e de experiência social?
Creio que na maior parte das vezes não...